sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Naufrágio

 Samir estava preocupado com a sua família. Seu país estava enfrentando uma guerra civil há vários anos e a situação havia piorado com a chegada de terroristas, que bombardeavam cidades inteiras somente porque os habitantes dali eram de uma etnia diferente.
Ele tinha parentes no Canadá e queria ir para lá, apesar de seu pedido de asilo ter sido rejeitado. Sua situação estava cada vez pior, pois os terroristas tinham bombardeado a cidade vizinha no dia anterior.
Ele tinha que buscar abrigo, refúgio, um lugar seguro, e então soube que muitas pessoas estavam atravessando o mar na tentativa de se refugiar em outro país e decidiu reunir o pouco dinheiro que tinha para levar sua mulher e seus dois filhos em segurança na travessia do mar num pequeno bote.
Samir não contava com a ganância dos atravessadores, que lotaram a pequena embarcação muito acima da quantidade adequada. Sem opção de retorno do dinheiro e ameaçado com uma arma, ele não teve alternativa e embarcou naquela viagem extremamente arriscada.
As crianças que estavam no barco choravam, amedrontadas com o balanço do bote. Os adultos estavam apreensivos, em silêncio, com uma mistura de esperança e medo.
Depois de navegar cerca de 500 metros, a pequena embarcação começou a naufragar, em virtude do excesso de peso e das fortes ondas que agitavam o mar. Nesse momento, Samir tentou socorrer seus filhos, mas foi afastado pelo balançar das ondas e pelo desespero das demais pessoas, que tentavam a qualquer custo sobreviver.
No meio daquela confusão, ele não via mais seus filhos nem sua mulher. Ele gritava desesperadamente, mas seus gritos eram sufocados pelos gritos das outras pessoas. Em menos de três minutos, ninguém mais gritava porque já estavam submersos no mar. Samir foi o único sobrevivente, pois conseguiu se agarrar nos destroços do bote, que ainda suportava o peso de uma pessoa.
Algumas horas depois foi resgatado aos prantos, junto com dezenas de pessoas na mesma situação, que navegavam em outra embarcação superlotada.
No outro dia de manhã, enquanto procurava informações com a defesa civil local, ele viu na televisão a imagem de seu filho caçula estendido sem vida numa praia perto dali e seu coração ficou completamente destruído.


Ao fim deste naufrágio, agarrada estou num pedaço de barco e as ondas revelam que o mar é forte. Estou à deriva, perdi o meu norte.” Trecho da música Naufrágio da cantora Marcela Taís.

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12 comentários:

  1. Isso que você escreveu podia ser ficção apenas... Uma pena, uma dor, um desgosto terrível que não seja! Nossa especie é terrível!

    Jaci
    O Que Tem Na Nossa Estante

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  2. Oi Diego, tudo bem?
    Bah, que bad.
    Quando vejo esse tipo de coisa (afinal, sua história relata a realidade), fico me perguntando quando foi que perdemos nossa humanidade...
    Beijos,

    Priscilla
    Infinitas Vidas

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  3. Q tocante e sufocante essa história. Quantas tragédias deve acontecer por aí a todo o momento, quantas pessoas perdem pessoas tão queridas por falta de humanidade, de respeito, de amor ao próximo.

    Valeu mais essa reflexão.
    Um Abraço.
    Diego, Blog Vida & Letras
    www.blogvidaeletras.blogspot.com

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  4. Olá, Diego.
    Infelizmente essa é a dura realidade que não para de acontecer. Parabéns pela sensibilidade ao escrever sobre esse assunto.

    Blog Prefácio

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  5. Ooi Diego, tudo bom?
    É horrível ler esse texto sabendo que ele é real para várias pessoas, imagina viver num país em guerra e ainda morrer tentando "viver" num lugar melhor,
    Beijoos,
    Sétima Onda Literária

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  6. Seus posts são tão únicos e marcantes, amo passar por aqui e ver escritas lindas! Um super beijo, Blog Minuto de Bobeira

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  7. Oi, Diego!
    Passando pra agradecer o comentário e avisar que tem post novo. =)
    Beijos,

    Priscilla
    Infinitas Vidas

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  8. Pela primeira vez vejo um texto seu que não tem um final feliz. Pelo contrário, tem um final triste e tocante. O que me espanta ainda mais é o fato de que não é apenas ficção. É real. E não acontece só com uma pessoa, mas com varias e em alguns casos, o final é pior que este.

    Abraços,

    Blog Decidindo-se \o/

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  9. Oi Diego,
    Que texto triste e realista, eu super me lembro do caso do menino que o deve ter inspirado. Triste para a maioria daquelas pessoas, boas, desses lugares a única saída acaba sendo a morte. :(

    P.S.: Sobre seu comentário lá blog, obrigada pelo elogio ao texto. Tenho um e-book de contos sim, na Amazon, Garotas em Ação e o Sobrenatural e Garotas em Ação: Não Tão de Fadas, que fiz com umas amigas. Pena que não deu certo pra continuar, mas o universo sabe o que faz. Concordo com suas palavras de que a internet anda mimizenta hahaha
    E eu geralmente percebo quando aliviam nas críticas nas resenhas nacionais, por receio. Porém, muitas resenhas positivas de um mesmo livro, acabam me deixando com pé atrás, para ler.

    tenha uma ótima semana :D
    Nana - Obsession Valley

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  10. Que escrita bela eim! Primeira vez que visito o seu blog, realmente você dança com as palavras! Sucesso sempre.

    Esteticando-se

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  11. Olá, Diego! Tudo bem?

    Caramba, que texto! Muito bem escrito e com uma grande sensibilidade. Vou ter que repetir o que os demais leitores disseram, de fato é uma dura realidade. Cheguei a ler duas vezes, é impossível não se colocar no lugar do Samir, personagem principal deste texto, e de demais pessoas que infelizmente lidam com a mesma situação.

    Uma ótima semana!

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