sábado, 17 de outubro de 2009

Brincadeira

Outra tarde passava devagar. Havia chovido e o tempo não estava tão quente como de costume, estava até fazendo um friozinho bom. Era sábado e Renato estava em casa, assistindo um filme quando o telefone tocou. Ele atendeu.
- Oi – disse ele, meio impaciente, afinal o filme estava numa parte boa e ele não gostava de interrupções.
- Oi – disse a voz do outro lado da linha. Era uma voz feminina. – Renato, é a Clara, lembra?
Claro que ele lembrava, afinal não havia muito tempo que eles estudaram juntos.
- Lembro sim. Lembro de todos da escola.
- Pois é. Tô te ligando porque uma pessoa pediu que eu ligasse...
- Quem? – Renato estava curioso.
- Lembra da Carol?
- Lembro muito bem. O que tem ela?
- Foi ela que pediu pra eu ligar pra você.
A Carol pediu pra Clara me ligar? Que estranho, pensou ele. Mas ele estava gostando. Ela era simplesmente a garota dos sonhos dele.
- Ela pediu que eu marcasse um encontro hoje à noite.
- Você está brincando, não é? Isso só pode ser uma brincadeira – disse ele, meio desconfiado.
- Não. Estou falando sério. Ela quer muito te ver. Disse que você poderia escolher o local e o horário.
Ele, ainda meio desconfiado, concordou. Disse o lugar e a hora em que se encontrariam. Seria às oito horas da noite no seu restaurante preferido.
No local combinado, perto das oito horas, lá estava ele, todo arrumado e perfumado. Esperou um pouco. Passaram quinze minutos além das oito e ele já começava a ter certeza de sua desconfiança, quando ela apareceu, deslumbrante.
Ele não conseguia nem acreditar. Pensou que estava sonhando.
Ela se sentou.
- Você está tão linda.
- Obrigada. Você também está ótimo – fez uma pausa e deu um sorriso. – Quanto tempo, né?
- Pois é. Eu sinto muita falta da escola, principalmente de você.
Ela ficou meio sem graça, aparecendo algumas manchas vermelhas em seu rosto.
- Por isso você pediu pra Clara me ligar? – disse ela.
- Na verdade, foi ela que me ligou, dizendo que você tinha pedido pra ela ligar.
Ela sorriu. Já tinha entendido a armação de Clara.
- A Clara sempre fez essas brincadeiras na escola, mas por essa eu não esperava – disse ela e olhou para ele. – Acho que ela resolveu fazer isso depois que eu disse pra ela uns dias atrás que eu sentia sua falta. Eu disse que das pessoas da sala a que mais sinto falta é você. Estranho, né? A gente nem tinha tanto contato...
Ela sente a minha falta, ele pensou.
- Eu pensei que fosse brincadeira dela. Que você não iria aparecer.
- Era mesmo uma brincadeira, mas pelo menos eu apareci – disse ela sorrindo.
- Nunca pensei que você sentisse a minha falta. Sério, eu não esperava por isso, apesar de desejar que isso acontecesse.
O coração dele batia muito acelerado, mas parecia estranhamente calmo.
- Parece que você se enganou e se subestimou – ela disse e pegou na mão dele. – Acho que a Clara fez bem. Só assim pra gente conversar.
Eles sorriram, pediram algo para comer e conversaram por mais duas horas, como nunca tinham feito antes, mesmo estudando na mesma sala durante três anos.
No fim da noite, ela disse que tinha esperado muito para ter essa conversa e que não queria mais perder tempo. Queria começar um relacionamento sério e ele concordou completamente. Eles sentiram que seus pensamentos convergiam na mesma direção.
Ele a levou até à casa dela e, enfim, beijaram-se pela primeira vez, sentindo que haveriam muitos outros beijos.
A noite tinha sido perfeita.

"E, hoje em dia, como é que se diz 'eu te amo'?". Trecho da música "Vamos fazer um filme", da Legião Urbana.

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