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Questionário político num encontro desastroso

 

Lucas havia conhecido Amanda num aplicativo de relacionamento no dia anterior. A conversa tinha sido bem agradável, cheia de brincadeiras, comentários sobre filmes e músicas, e alguns interesses em comum. Ela parecia uma mulher divertida, inteligente e de conversa fácil. Ele gostou da maneira como conseguia prolongar a conversa sem que nenhum dos dois precisasse fazer muito esforço.

Depois de algumas horas de papo, Amanda sugeriu que se encontrassem pessoalmente e Lucas aceitou sem pensar duas vezes. Não tenho nada a perder, ele pensou.

O que Lucas não imaginava era que estava prestes a participar de uma espécie de interrogatório político.

Eles marcaram o encontro em uma cafeteria bastante conceituada. Amanda chegou dez minutos atrasada, cumprimentou-o com um sorriso discreto e se sentou ao lado dele.

– Lucas, agora que eu percebi, você tem cara de bolsonarista – ela disparou.

Ele achou estranho e tentou levar aquela sugestão de forma bem-humorada.

– Amanda, acho que você sabe que o voto é secreto.

– Mas você é de direita ou de esquerda?

Lucas tentou explicar que não queria transformar aquela conversa numa disputa política. Amanda, porém, parecia cada vez mais interessada em descobrir de que lado ele estava.

– Você não vai me responder?

Ele sorriu, um pouco desconcertado.

– Amanda, a gente acabou de sentar. Nem pediu o café ainda.

Ela riu, mas não pareceu entender o recado.

– Estou perguntando porque gosto de saber com quem estou saindo. Não quero perder meu tempo com bolsonarista.

Lucas ficou alguns segundos em silêncio. Não sabia se deveria rir, explicar suas opiniões ou simplesmente perguntar se ela havia levado algum formulário para preencher.

Naquele momento, ele percebeu que o encontro seria muito diferente do que havia imaginado. A Amanda que conhecera pela internet parecia mais leve, espontânea e legal. Pessoalmente, era como se estivesse tentando encontrar alguma contradição para despachá-lo.

Eles pediram e o café chegou, mas a conversa continuou girando em torno de política.

– Eu preciso mesmo saber se você é bolsonarista – ela insistiu.

– E se eu fosse bolsonarista? Qual é o problema?

– Bolsonarista costuma ser tosco, grosseiro, arrogante. Gente que não sabe conversar sem querer humilhar os outros. Intolerância, preconceito, homofobia, contra a ciência, entre outras coisas.

Lucas a olhou, espantado, quase sem acreditar em tudo aquilo.

– Então, você olhou pra minha cara e achou que eu sou assim? – ele perguntou de forma incisiva.

O rosto de Amanda ficou avermelhado. Pela primeira vez, pareceu considerar que talvez tivesse exagerado.

– Não, não, me desculpe.

– Você disse que um bolsorarista é preconceituoso, mas foi você que me tratou com um preconceito gigantesco, só por achar que tenho cara de bolsonarista – ele disse, tentando permanecer calmo.

– Você tem toda a razão, eu errei, me desculpe.

– Eu me senti profundamente ofendido, mas eu te desculpo. Só me responda uma coisa, você não acha que pode encontrar um bolsonarista que não seja do jeito que você acha que é?

– É quase impossível, eu prefiro evitar – ela respondeu sem pestanejar.

– Você tem todo o direito de evitar quem você acha que deve ser evitado, mas eu sinto muito que você tenha essa visão, me parece um pouco limitada e generalista. Você coloca milhões de pessoas como se fossem todas iguais e desprezíveis. Me desculpe, mas isso não é certo. E eu não quero discutir política com você, é só sobre ter uma visão mais abrangente e humana sobre outras pessoas.

– São todos fascistas, mesmo sem saber – ela falou num tom de voz alterado.

– É uma pena que você pensa assim.

Lucas tinha uma expressão triste e o que mais o incomodava era a facilidade com que Amanda havia realizado um julgamento precipitado e preconceituoso por conta de esteriótipos políticos e visões distorcidas da realidade.

– Sabe de uma coisa? Acho que você não é bolsonarista.

Lucas ergueu as sobrancelhas, surpreso.

– Talvez eu seja ou não, talvez eu seja de centro ou até seja de esquerda, mas isso não importa mais. Infelizmente, eu pensei que seria um encontro maravilhoso, mas não foi.

A polarização política acabou com qualquer chance de um final feliz.


**********************************


“Vamos celebrar a estupidez humana. […] Celebrar nossa desunião […] Vamos celebrar os preconceitos […] Vamos festejar a inveja, a intolerância, a incompreensão […] Vamos celebrar a aberração de toda a nossa falta de bom senso.” Trechos da música Perfeição da banda Legião Urbana.



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